The Turning Point


Na Líbia temem um novo massacre
Ontem, 40 crianças foram esfaqueadas
A fumaça de um míssil israelense
Desenhou uma estrela de seis pontas
No coração da Faixa de Gaza
Foram vinte vítimas fatais
Serão quarenta retaliações
Alá, areia e sangue

Não muito longe dali
Um soldado americano enlouqueceu 
E matou quinze civis afegãos
Mulheres...e crianças...
O talibã prometeu vingança
Obama se desculpou
Acobertou o assassino
E investiu pesado na indústria bélica
Pois o aumento (in)esperado do petróleo 
Vai quebrar a economia
E isso sim é assunto sério
Não é mais surpresa, todavia
Enquanto houver tanque cheio
Para o homem ocidental
Tudo vai bem, obrigado

Discursos se perdem 
No quente bafo da tarde
Os santos se esgotam 
Em meio às rezas noturnas
A quem socorrer?
Quais preces ouvir?
De que lado lutar?

Enquanto isso no centro
Das grandes cidades
As pessoas se espremem 
Nos metrôs lotados
Com seus sovacos azedos 
De suor e trabalho

Choverá amanhã
De resto, tudo igual
Carros rodando a avenida
Indiferentes à flor que brota
Apesar das dores do mundo

Quanto a mim, o que me resta
Além de sentar no Turning Point da vida
E assistir ao colapso do mundo
Morbidamente estático
E inválido em frente ao computador?

Sinto uma sombra grotesca
Pesando-me na crueza da carne
Pórtico de entrada para a metafísica
E outros fantasmas inafastáveis
Que atemorizam meus últimos dias

Nós

Descemos do carro
No inverno dos dias

Praia deserta 
Noite escura

Nós cegos nós 
No meio da vida

Descemos do carro
Cortou-nos vento

Pisamos a areia
Sem trocar palavras

Mas no fim das contas
Fomos felizes: 


Era Amor

Deixem o poema em paz

Meus caros amigos,
Não há nada de novo por aqui
Somente as mesmas palavras duras e secas preenchendo o cenário desta desilusão

O verão arde 
O sol das onze ferve-nos o tino
O poema vacila em nascer para o mundo como uma flor de náusea impávida e real

É complicado, eu sei... requer paciência e um pouquinho de boa-vontade
No começo é difícil caminhar com as próprias pernas
É bem comum meter os pés pelas mãos e não entender bulhufas
Mas vamos com calma, aí vai um empurrãozinho:

Deixem o poema nascer!
Tanto faz se no barro seco do chão 
Ou no asfalto ou na grama do jardim
O importante é deixá-lo firme, para que floresça, um dia
No meio do caminho de quem vem de longe
E vai se perder na estrada de Silêncio e Caos

Deixem o poema rolar por aí
Cair profundamente nos abismos
Lúcido como um heterônimo pessoano
Deixem o poema comprimir-se no peito e depois explodir
Exprimir! Expandir! Exaltar qualquer coisa maior do que si mesmo 
Ou o mundo, com todas desgraças e maravilhas
E, mesmo que o poema não fale sobre nada além dele mesmo
Que não é senão tudo, deixa ele ser...
Se criar e rolar pelo mundo...
Pisar a grama de pé descalço brincar na rua até anoitecer...
Arrebentar o dedão jogando bola...
Brigar... Enfim, todas aquelas coisas que fazem uma infância feliz

Pois virá o dia em que ele será engolido
Pelas trevas da indiferença
No vácuo que há entre o mundo e nossas inválidas inexistências
Pois um dia ou outro ele acumulará ferrugem
Como uma corrente de palavras no convés de um navio encouraçado
Veterano de guerra sobre as águas
Ancorado sobre as manchas de óleo que cobrem o Mar
Ferro-velho sobre Mar morto! 

Ora, deixem o poema sonhar!
Pois um dia ou outro ele será digerido 
No lodaçal miserento da derrota
Assim como uma língua em que versos são escritos desaparece ao menor estalo...
Então só haverá a música...
Há quem diga, por outro lado, que o poema vive, para sempre
Vitorioso e retumbante no peito dos velhos amigos
E dos leitores fiéis mesmo que críticos
Eis a luz no fim do túnel para poetas-piolhos
Fracassados megalômanos e ególatras 
Mascarados especialistas em fugir e nada mais
Dissolvedores do Eu no Outro e do Outro no Eu - Como Eu!
Meros especuladores de significâncias vazias, aparentemente.
Mas místicos, sobretudo...Ah, Místicos!
Leviatãs de aço projetando na escura trama da Linguagem astros incandescentes 
Imagens, Palavras e Alter-Egos fulgurantes numa órbita viciosa de Mistério e Névoa  

Deixem o poema em paz, caras
É disso que o poeta precisa
Só assim o poeta massacra-se
Só assim o poeta (trans)fere-se 
Só Assim o poeta satura-se
Só Assim o poeta transvê-se 
De cima e por si mesmo
Fragmentado e Uno
E recria seus álibis para justificar sua autodestruição
E ejacula desvarios poéticos tão profusamente quanto uma erupção vulcânica

Meus vulcânicos amigos, aí vai mais um conselho:
Fluam com a poesia do mundo
Procurem no arco-iris algo que não seja uma cor
Deem nome aos cães, aos homens e aos versos antes que não mais te pertençam
Ah, importante: nunca, mas nunca pense antes de agir...

Ao amor que eclode, deixa-lhe marcas de indiferença
E, enquanto houver asco em tua boca
Confirma o escarro que não existe.

poética da necrofagia

escute meu chapa,

um poema não se faz com versos

colhidos ao léu em jardim alheio
tampouco com trocadilhos gratuitos
tecidos com pressa antes do sol

um poema não se faz com rimas
nem com métricas de arrebatar
trata-se de expôr a lata sem medo
e nunca correr quando a coisa ficar preta

além disso, um poema se faz no deserto
com o coração entregue aos leitores
para nutri-los da mais ingrata podridão
ah, esses abutres de negras penas!

atenção! um poema se escreve, apenas
mas não na areia da praia, com vento na cara
tampouco nas nuvens... suave... ou no céu...
(dispensa-se até a caneta e o papel)

meu amor, pela última vez
meu poema não está nos teus cabelos
meu poema é carniça fresca no deserto aguardando os urubus
pois ser devorado, quando morto, é vencê-los

citação:
ofereça este poema
a um leitor e a um abutre
o que ficar mais satisfeito
elogiar, gorgolejar, curtir, se lambuzar
e admitir que o verso podre muito bem o nutre
é o leitor, nem que seja o abutre

esplim de carnaval

mil cachos venéreos pendem da carne
a bomba do peito, chamada coração
é bateria de escola de samba
no carnaval sujo tecido em baiano


me decompondo sóbrio em mi menor
nadando no pus dos olhos do tempo
cheio de ódio pela 
humanidade


abram alas! mil línguas se agitam
sobre a ferida-mãe do peito
como um satânico novelo de versos
perversos


mil línguas pustulentas
desnovelam-se em insânia
sobre a novela da carne
entre as preces e os ratos


e da pele esburacada
plena de cancros e necroses
transbordam larvas bem nutridas
aos milhões! aos milhões!


vão! meus filhos...
pelas torrentes satânicas
da espuma pecaminosa
dessa noite fevereiriana


por sobre as cinzas 
de qualquer quarta-feira
fecundar a humanidade 
com o dissabor destes versos

Contemplação

O céu recua
Sem perguntas
Ausente e sem mistério

De meus jardins anteriores
Só me restaram palavras
Cicatrizes sobre a carne
Escassas flores pisoteadas
Com odor de esgoto a céu aberto
Em dias quentes de verão

Avulso
E em convulsões
Conjugo-me como a um verbo
Indeclinável, no entanto, mas inverossímil

Meu nome
Ainda é o mesmo
Mas para não esquecê-lo
Repito-o incessantemente
Em tons fúnebres de prece católica

Na terra do sonho onde me afasto da vida
(Que é um mero detalhe para quem desliza entre idéias)
As cores me abstraem e o acaso me compõe em sonatas de gelo e dor
Mais frias que a noite e mais densas que os olhos crus da minha namorada

Eis o dia a dia da minha provação.
Deslumbramento espontâneo da contemplação.
Dia após dia após dia após dia após dia após dia.

O céu recua
Sempre como a onda
Que quando ninguém espera
(E estão nuas tuas costas de praia)
Vem e enxágua essas baías de areia e osso
Com a abundância exuberante do azul celeste

O céu recua
Fugindo ad infinitum
Embora não saiba por quê
Pra onde, nem de quem, ou até quando?
Dobrando-se em si mesmo ele se encolhe
Transmuta-se entre as lacunas de amor e luz (vazio).
Mas na fuga, se agiganta; e no medo, se adoça, manso
Porque é sempre céu e sempre azul, mesmo que cinza

O céu recua
Tal qual maré-morta
Lodaçal salgado do tempo
No qual apodrecemos aos versos
Na espuma bacteriana da pós-modernidade

Fervendo, o coração se consome
Decompõe-se em sais sulfúricos de medo
E volta a ser lodo
Caos ancestral
Tempo e pó
E isso é só

O céu recua
E já não suspiramos
Nem sentimos mais saudades

Nuvens
É o que somos
Passageiros do Presente
Sob o reflexo insano do sol

ao poeta do castelo

cravado no seio da terra
como um castelo de pedra
resiste um pobre poeta
suspenso nas próprias palavras
e autofagiado nos versos

armado até os dentes
na trincheira do castelo
da recusa ao sol ele vive
pois poesia é no escuro

(os relógios na parede
nunca marcaram as horas)

o poeta é o santo
e o deus de si mesmo
opiáceo, breve e opaco
como o crânio e o cu
que expelem a revolta
e o universo em palavras

fábula da morte


o estrago de um dia
após o outro dia
após o outro
após um
e mais outro
dia
sentindo o fio
certo da foice
pois tão logo
a vida veio
num piscar
de olhos foi-se

a fuga da palavra

quando a palavra saiu do papel e se afastou
                         da margem
                                                     do poema

a face atônita do cotidiano
se desprendeu da prosa
e mergulhou nas sombras
de um poema qualquer
vagabundo e inútil
como este aqui

como eu me lembro daquele dia!
a palavra se ia
             cada
                   vez
                        mais
                                     longe
                                                              e fugaz...

e o poema resistia
tão teimoso que era.

e o poeta já se sentia
o rei! o rei! o rei da poesia!

na ausência da palavra
o poema era um espasmo!                   
era uma esfera de chumbo   
rolando no tapete
entre bolas de cabelo
e pedaços de unha e poeria!

ao longe uma larva verde
com sua grotesca garganta
gritava:
vanguarda! vanguarda!
prendam aquela palavra!
mas a palavra longínqua e pequena
rolou de poema em poema
anêmica e enfraquecida
e por si-só tombou no meio da rua
(a saber: a larva era a lua)

o poema ria-se todo
mas seu torto riso besta
teve que conter
pois a aguerrida palavra
reuniu todas suas forças
armou-se até os dentes e,                              
                                                                      cabi
                                                                            s
                                                                            baixa

                                                            à

                                     margem

                 retorna
cortês
e formal
como deve ser

Flor de Carne

I
Tu vinhas toda Virgem e nervosa
Ardente a Flor, mas seca qual deserto
Voraz eu vinha, do teu ventre aberto
Rasgar a pura pétala da Rosa

Eu gargalhava, inebriado e torto
Apostrofado pelo odor da Rosa
Da Rosa egípcia e misteriosa
Que em espirais de Amor me tinha absorto

No ar pairavam densas nebulosas...
Com medo, a Flor mais tímida ficava
Meu músculo tateava a tensa trava
Da Rosa mais estreita dentre as rosas

Como um morango duro e intumescido
Meu membro ereto ergueu-se como herói
Rompeu teu Hímen, escutei um “dói”
Na prece murmurada de um gemido

Tu tinhas convulsões enquanto davas
Trazias Ódio bom no coração
Tua Flor de Carne então era um vulcão
A derramar seus óleos como lavas

II
Ó, Rosa que eu amei sangrentamente
Ond’hei de inocular minha semente

Vagina Sacrossanta, Flor de Carne
Oásis púrpura em altar de mármore

Ó, Rosa retesada, ex-virgem rosa
O ninho da Serpente esplendorosa

Despetalada Flor de carne exangue
Botão que eu encharquei de Porra e Sangue

Uma Paisagem Musicada

Há um acorde suspenso
Sobre a planície deserta,
Onde os vultos dos pássaros
Vêm beber a seiva da noite 
E dar vida à natureza-morta
Da paisagem do subúrbio.


Na ante sala do abismo,
Há outro acorde suspenso.
Como um cristal de Praga
Recortado na relva frondosa
Do velho papel de parede.


Sobre o parquê envernizado,
Segregando a perspectiva,
Trabalha um piano de sal,
Tocado por mãos morenas
De carne fresca e apetitosa.


Há um acorde suspenso,
misto de sonho e silêncio.
Para bebê-lo é preciso:
Da mulher melodiosa,
Sorver dos olhos o azul;
Da sua canção de morangos,
Dissipar a polpa e bebê-la,
Ao som das sementes de luz
Enterradas no vão das pupilas;
E dos lábios entreabertos,
Roubar a bomba de hélio.


Há um acorde suspenso
Entre aquela blusa amarela
(Da menina dos meus olhos)
E o sol sonhado o ao meio-dia,
Debatendo-se no quadro
Da parede branca da sala.

alguma palavra

I
alguma palavra
decerto foi dita
no então contratempo
da presente escrita

na ossada da noite
num verso vingou
rasgando o relógio
e a sombra do som

rodou pelo mundo
assim de repente
foi mal compreendida
matou muita gente

sua luz radioativa
nervosa, inquieta
brotou um tumor
na voz do poeta

e no coração
da raça inteira
do caos em vocábulo
se vai à cegueira

tirana, terrível
de o riso entortar
e agora, leitores,
presente ela está

é aquela palavra
no branco papel
lavrada no nervo
do verso do céu

II
decerto a menina
dos olhos minguantes
ouviu a palavra
há poucos instantes

alguma palavra
roubada e vazia
que fez de repente
o parto do dia

em duas metades
de mesma valia:
a realidade
e esta poesia

Cansaço de ser eu

Quem és tu, réptil do cotidiano,
Serpente de concreto que embota meus olhos
De lágrimas e cansaço de ser eu?

Preso no arcabouço de aço do tempo
Eu danço ao som do tráfego e das buzinas
Todos os dias da minha vida útil.

Espremido entre as infindáveis
Escamas metálicas das horas,
Qual verme vil e rugoso eu rastejo,
Fantasma de cimento, sangue e sêmen.

Quem és tu, serpente quilométrica do dia-a-dia,
Que persegue a vida do homem pequenino,
Aprisionando-o no labirinto intransponível de concreto
Da cidade e também da própria mente?

Quem és tu, cascavel do tédio e da rotina,
Que injeta pelos olhos o veneno da realidade
Na alma orgulhosa do homem ordinário,
Até tingi-la de negro, como a cada alvéolo do pulmão,
Até expurgar a felicidade pela boca em espuma,
Prenunciando a necrose do corpo e da alma?

Quem és tu, besta ofídica de cimento e alumínio?
Quem és tu, monstruosa serpente de caos e mentira,
Cujos mil olhos são as janelas dos prédios mofados e malcheirosos
E cuja ira infernal incinera os sonhos mais verdadeiros
Pelo simples prazer de vê-los queimar em chamas sacrossantas?

Quem és tu, assombrosa criatura cuja força motriz é o tempo
E cujo combustível é o denso óleo da eternidade,
Que é consumido vorazmente e aos galões
A cada giro insano das engrenagens de ferro,
Que rangem ganidos ensurdecedores
Cujo eco retumbante é oxidado e morto pelo meu fazer poético?

Ó, maquinação irrefreável da mente,
A vida é uma pergunta irrespondível.
Por que tanta ânsia em respondê-la?
Quanto cansaço me entope as veias!
Eu tenho casa, tenho mulher, tenho emprego e até banda,
Mas o mal-estar sempre me escorre pelas narinas.
É aquela besta abominável a assombrar meus dias!
E não há cama que me aqueça.
E não há abraço que me acolha.
E não há beijo que me acenda.
O cérebro arde no crânio.
O Espírito arde na carne,
Mas não há canção que me afague.

O que sou eu que irrespondo à existência?
Seria possível erguer uma torre de vento
E nela me quedar pra sempre?
Mas como é suave morrer na brisa...
Nós somos os descendentes dos dragões
Dos sonhos inglórios do amanhã tardio.
Não seria o caso de pôr fim ao jogo
Agora e de uma vez por todas?

A celebração do espírito

O homem é um fragmento da eternidade desenhado no metal do tempo.
Ente de sangue e espírito desde o conforto do útero à sombra da tumba voraz.
No princípio, agora e sempre, em sono eterno jaz,
Imerso em oceano infinito de bonança,
Como força vital e luminosa desprovida de identidade e pertencente ao todo que é deus
(a organização natural das coisas, que pode tomar o nome de deus).

Eis que, no enlace mágico dos zigotos,
A energia aleatória ouve o chamado inevitável da carne,
E, da insidiosa união dos tecidos, dá-se a vida,
E se torna possível a existência, tal como a conhecemos,
Diminuta na grandeza infinita e atemporal do universo.

O chamado nos arranca com doçura do descanso eterno do leito de calma.
Somos indolorosamente extirpados do útero invisível do mundo ulterior,
Abandonamos o desconhecido e passamos a existir ativamente,
Na carne sobre o osso que então passa a guardar a luminosa essência.
Somos, enfim, introduzidos no útero quente da mãe e
Ali conhecemos o amor e ali nos tornamos humanos.

A concepção é um recrutamento do qual não podemos desertar,
Tampouco alegar invalidez, porque a vida há de ser nossa causa e bandeira
E por ela morreremos no decorrer da batalha.

O feto, retorcido na placenta, aguarda, inquieto, os gritos e as lágrimas da mãe,
Para rasgar a mesma fenda por onde entrou quando ainda semente, há cerca de nove meses.
Nasce o homem. Desenha-se no espaço o espírito humano,
Aceso no pavio do pequeno pedaço de carne,
Constituído de um punhado de órgãos 
Em pleno estado de funcionamento.
E o ser agrega matéria, memória
E uma ânsia irrefreável de crescimento.
Eis que, das misteriosas energias confluídas na crueza da carne, eclode o Eu.

O rebento da mãe moribunda responderá por um nome,
Conhecerá a esfinge mutante da Língua, 
Desvendará seu enigma e por ela será devorado.
Então ele articulará sons e significados com o áspero músculo da boca.
E, deste exercício e da observação do mundo,
Será presenteado com a consciência.
E, talvez, também com uma possível soberania e independência do Eu.

Jogado em qualquer porção de terra de país algum,
Ele será entregue aos costumes,
Então roupas cobrirão seu corpo.
Com o tempo, aprenderá a contar o tempo do homem, pois homem será.
(Ah, o incansável tempo do relógio...)
Ao se olhar no espelho, rugas na cara e costas arqueadas,
Sentirá a ponta gelada da foice nas costas,
Então amaldiçoará o mundo, velho e pisoteado.
Eis o homem: carne que será carne por mais setenta anos.
Porque o vento derradeiro há de vir, mais dia ou menos dia,
Arrancar, como faz flutuar uma pluma do solo, a luz,
Que brilha nalgum compartimento secreto desta máquina
Que apodrecerá em carne lacrada na tumba
Ou será incinerada dissipando, assim, o Eu-Todo-Poderoso.
E o vento carregará a luminescência por sobre as nuvens e pelos confins do universo,
Onde a luz não aflora e nenhum sol brilha.
Para submergir de volta no mar primordial de infinitude;
Para repousar novamente em pleno leito ancestral;
De modo que a morte nada é.
Apenas passamos por uma existência terrena temporária.
Mas nunca deixamos de viver em deus.

Trago cósmico

O Universo veio ter comigo
Numa tarde gélida de julho
Foi logo entrando sem pedir licença
Sentou-se à mesa e acendeu um cigarro
(Uma miniatura de sol reluziu sobre mim)
Após um longo período de apreensão
E completo silêncio no vácuo da sala
Sob gloriosos arcos de fumaça
Ele ruminou um enigma e o revelou,
Com grave e densa voz de infinito,
(Uma formidável poesia anti-gravitacional
Em língua portuguesa, pra minha surpresa)

"Vinho?", perguntei. "Por favor", ele me disse
E agitou a cabeça levemente
Enquanto batia as cinzas do cigarro
O tempo derretia e se recompunha
Incessantemente a cada movimento
Do meu ilustre e digno convidado
E, líquido, ora pingava nas taças
Misturando-se ao vinho barato
E efervescendo ante meus olhos acesos

Enchemos a cara a tarde inteira
Jogando conversa fora
Bolando melodias pegajosas
E fazendo versinhos ridículos
Harmonizando canções antigas
E esculpindo palavras novas
Como velhos e bons amigos
Degenerados e bêbados
Tarde afora em plena segunda

Eis que na loucura do trago
Já balbuciando palavras em idiomas indecifráveis
Olhos fumegantes aranhas sob a pele
Chegamos à seguinte conclusão (parecia tão óbvio):
“só é pleno o espírito que transborda”
E no mesmo instante verteram
Luminosos fantasmas com tentáculos e raízes
Do peito do homem-deus que ali estava
Com o semblante aflito num frenesi indizível
Subjugado pelos espectros gerados pelo próprio ventre

Jorravam os perfumes, as luzes e as cores
Como num sonho jamais sonhado
Cruzando o céu num espetáculo inacreditável
Os filhos do infinito inundaram a sala 
Depois a casa e, logo, a cidade
Em questão de minutos, tinham tomado o país
Poucas horas e o mundo se afogava
Num mar inflamável de faces monstruosas

O tecido da realidade queimava aos poucos
Tudo era grito de dor e aparente destruição
Seria o fim? Seria o derradeiro momento?
Malditos tragos cósmicos em plena segunda!
Eu e a minha mania inconseqüente
De tomar todas com as estrelas
E com entidades divinas... mea culpa...

(Em minha defesa: “Foi tudo em nome da arte,
Sou só um homem nauseado espremido
Entre a vontade da essência
E o absurdo da existência”
E assim me salvo)

Caro leitor,
Esta poesia não faz mais nenhum sentido
(Se é que um dia algo tenha feito)
Que a comam os abutres, e que a comam já!
Não serve sequer para adubo
Para dizer a verdade,
Ela flui hoje aonde a luz não chega
Carrega a herança dos excessos
Desbravando o Inferno em expansão
Derramando a eternidade em chamas azuis
Por sobre as terras virgens de verdade
Justo como eu previ naquela tarde extraordinária
Quando o Universo veio ter comigo

O sol é um zepelim de fogo

No rastro leitoso da galáxia
Uma estrela nada e se nutre
Agarrada ao seio de poeira e luz
De algum ponto vazio do espaço

É o sol! meu zepelim de fogo
Emanando selvageria universo afora
Pulsando & pairando, soberano,
Sobre os edifícios de esponja e sangue
Que brotam feito melanomas de concreto
Esgaçando o centro das cidades
Imensos corais de loucura pós-moderna
Onde nascem e crescem crianças
De crânios cromados e crinas cremosas
Afagadas e fustigadas diariamente
Pelas infinitas línguas de luz solar
Que como (di)amantes derretidos,
Beijam, aquecem e envolvem
A terra: esfera azul de vida plena
Embrião imerso na saliva amniótica
E altamente nutritiva do Amor

Foi desvendada a real identidade de Deus.
É o sol! com seus dedos radioativos
Desenhando no vazio a órbita dos astros
É o sol! eterno objeto da nossa adoração
Responsável pelo absurdo e culpado pela existência
Deus! Deus! Sol! Sol!
Sob qualquer forma ou imagem
Que possa conceber a mente humana:
Velho barbudo, energia cósmica
Eterna dualidade de opostos
Tudo e nada
Nada e tudo, enfim:
O sol é um zepelim de fogo
Tripulado pelo Avatar divino
Que observa o grande tabuleiro
Onde as peças se movem, orgulhosas
E convictas de um suposto livre-arbítrio

sumiço noturno

ele pediu para abrir a porta
para ver se a noite ia bem
eu disse 'não toque na mulher branca
ao longe disfarçada de lua
pois em anos ímpares
ela devora os curiosos
aventureiros da noite'


ele não me deu ouvidos
inebriado que estava
(como a noite e a cachaça
enchem o homem de coragem!)
passou a mão no casaco
apagou o cigarro na mesa
abriu a porta e

com os dedos encantados

dividiu a madrugada 
em duas metades idênticas
e sumiu

arrependimento

se eu soubesse eu não faria
ou faria diferente


decerto uma lágrima de magma
derramada pelo vulcão dos olhos
me alertasse ainda a tempo
decerto um beija-flor
no quarto de hora do sol
me calçasse os pés de vento
e assim eu caminharia
pela costa de sal e sebo
sem ter os olhos na boca
e a língua entre os dedos
os cabelos em chamas
o esqueleto trincado
e esta luz fraca e fosca
vacilante na fenda peito


ah, se arrependimento matasse
decerto eu caísse duro
antes de dar um próximo passo
ou decerto uma andorinha
daquelas de poesia barata
me equilibrasse em suas palavras
assim o riso rolaria solto
através da estampa suja dos dias

decerto, ainda, uma idéia corroída
pelo calcário do tempo
entre o cérebro e o mel do mundo
me pusesse novamente em pé
decerto uma ponte de fumaça
sobre o mar me sustentasse
quem saberia dizer?


decerto uma ruga cavada
como trincheira no rosto disforme
desfigurado e roído pelo remorso
me recoloque nessa dança
enqunto isso eu sigo
sensível ao absurdo
carne enluarada
comprimida entre o pó dos ossos
e a bomba de cádmio do coração

giramundo


agita-se o mar da história
ideologias faíscam nas pupilas
ainda o rugido da tempestade
engole e abate os nossos homens
que erguem os braços e espremem 
gritos de guerra entre os dentes
ouve-se o rumor da marcha
as nuvens da revolução
aglomeradas no céu estanque 
fervilham o sangue nos corações aflitos

as vozes venenosas do inimigo
se insinuam e se oferecem
com cifrões amarrados no pescoço
transbordam dos jornais como peste
se multiplicam pelos esgotos
asfalto até a capital do país e o mundo
range a engrenagem do tempo
o relógio ainda resiste mas já não é real

avante! avante! espírito livre!
a batalha se aproxima
é lutar ou lutar
ou abandonar para sempre
a causa e o ideal
uni-vos, espíritos livres e insubordinados
eternos rebeldes da causa solidária
a utopia já nasce morta?
quem disse?
quem ousou matá-la antes mesmo de nascer?
a passagem para o futuro é estreita
dá para um mundo melhor
é nossa missão implodir, portanto,
este enorme bloco de hipocrisia
e malandragem que obstrui a evolução
a passagem das horas e dos tempos
é hora de ver girar a roda do mundo
façamos da terra um organismo
onde todos os seres coabitem
e compartilhem o mesmo ideal
que queime viva sob a rajada de nossos gritos
a ilusão de que somos inimigos
a competição não nos é inerente
o homem não é velhaco!
o homem é bom!
levarei essa certeza comigo até o túmulo!

e os anos se arrastam e se acumulam
neste ano que é o mesmo há anos
giramundo! eia! giramundo! eia!
os três poderes serão um!
os três poderes serão um!
os três poderes serão um!
amor não só ao próximo, mas ao que está distante!
e os anos se arrastam e se acumulam
neste ano que é o mesmo há anos

ah o sol está a pino! chegou a hora!
o rugido aumenta. é o furor da batalha
vibra o tórax num grito supremo
e humano. marchemos, pois,
não pela memória de nossos ancestrais
mas pelos que virão e verão 
novos tempos e novos homens
marchemos para o futuro
passo firme e bandeira em punho
fuzis nas costas e meias limpas
desferindo golpes no frágil sistema
que sustenta esta palhaçada
e há de cair pela união de nossas forças!

giramundo giramundo giramundo
a passos curtos
giramundo giramundo giramundo
vira a página
giramundo
colapso
apagão das luzes!
rompe este cordão que nos nutre de veneno
maldita nova ordem dos séculos
giramundo
giramundo
giramundo
dilacera-se a realidade
pois o possível é comum a todos